O POVO BULGARO CONTRA A MAFIA

Protestos populares já duram quase 60 dias na Bulgária
 
Um descontentamento irreprimível
A nova vaga de protestos na Bulgária começou em 14 de Junho com a nomeação do magnata dos PIGs (media), Delyan Peevski, para a chefia dos serviços de segurança. Passaram-se 50 dias
Peevski já tinha sido investigado por corrupção em 2007, quando era ministro no anterior governo. O caso foi arquivado, mas o povo búlgaro viu nisso, não a prova da sua inocência, mas mais um exemplo do controle do Estado pela oligarquia dominante, cujas ligações ao crime organizado são amplamente conhecidas.
A nomeação de Peevski foi rapidamente anulada pelo governo de Plamen Orecharski, que tomara posse havia apenas duas semanas, na sequência de eleições antecipadas. No entanto, o mal estava feito.

Peevski foi o detonador, não a causa do profundo descontentamento que os búlgaros têm vindo a alimentar contra o sistema corrupto e os partidos que lhe têm dado cobertura nos últimos 25 anos, desde o derrubamento do regime socialista.
No dia 23, milhares de manifestantes cercaram durante a tarde e noite o edifício do parlamento, bloqueando no seu interior os deputados, governantes, jornalistas e funcionários.
 
A jornada acabou em confrontos com a polícia, quando esta tentou escoltar a saída de um carro abrindo caminho entre a multidão. Várias pessoas ficaram feridas.
Nos dias seguintes, os protestos continuaram sem registo de incidentes violentos. Os manifestantes exigem a demissão do atual governo e alterações no sistema eleitoral, que marginaliza os pequenos partidos.
 
Todavia, apesar da surpreendente persistência dos protestos, o movimento não tem porta-vozes, um programa definido ou uma organização política que dê expressão ao desejo de mudanças efetivas similar ao movimento de junho no Brasil.
 
É possível que a luta na rua provoque a queda do executivo de Plamen Orecharksi e leve à convocação de novas eleições, tal como sucedeu após os protestos massivos no início do ano contra o aumento dos preços da electricidade. Porém, não é certo que as eleições tragam por si só a solução que o povo exige.
Uma situação intolerável
Há muito que a esmagadora maioria da população está descontente com o estado de coisas no país.
Uma sondagem efectuada pelo instituto Open Society, publicada dia 27, mostra que 72 por cento dos inquiridos consideram «intolerável» a situação existente, percentagem que é 15 pontos superior à registada em Julho de 2012.
Segundo este estudo realizado entre os dias 5 e 16 de Julho, num universo de 1.155 entrevistados, apenas dois por cento consideram a situação «normal» e 22 por cento qualificam-na de «suportável».
Perguntados sobre a situação económica, 63 por cento indicam que houve um agravamento no último ano, e 37 por cento receiam que continue a agravar-se.
Cerca de 40 por cento dos búlgaros afirma ter mais confiança nas instituições europeias do que nas nacionais, e 70 por cento estão satisfeitos com a pertença do país à União Europeia, em virtude de lhes possibilitar trabalhar, viajar e obter fundos de desenvolvimento. Em contrapartida, 67 por cento são contra a adopção do euro.
 
Um outro estudo, publicado no mesmo dia e igualmente citado pela agência suíça ATS, indica que 51,7 por cento das famílias, ou seja 3,7 milhões de pessoas, vivem com 310 leva (158 euros) por mês e por pessoa.
Segundo a Confederação de Sindicatos Independentes da Bulgária (KNSB), autora do estudo, para uma vida normal cada pessoa devia ter um mínimo de 566,63 leva (290 euros), rendimento que só 13,4 por cento das famílias dispõem.

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