MAIS UM GOLPE FINANCIADO PELOS EUA

Os Estados Unidos

e o golpe no Egito
A CIA reconheceu pela primeira vez a sua participação, juntamente com os serviços secretos britânicos, no golpe de estado militar no Irã, em Agosto de 1953.
O movimento golpista derrubou o então primeiro-ministro progressista Mohamed Mossadeg – que «desafiara» os Estados Unidos e a Grã-Bretanha ao defender a nacionalização da indústria petrolífera persa – e devolveu o poder absoluto ao xá Reza Pahlevi.

Documentos secretos desclassificados em 2011, mas só agora revelados em Washington, explicam que a ação militar contra Mossadeg e o seu governo de frente nacional foi dirigida pela CIA «como um ato de política externa norte-americana».
Os círculos anti-imperialistas em todo o mundo denunciaram ao longo de décadas a conivência norte-americana nesse golpe no Irão. Nesse e em dezenas de outros golpes e assassinatos cometidos contra regimes e personalidades progressistas na Ásia, na América Latina e em África.

Não será necessário esperar mais 60 anos até se comprovar a cumplicidade dos Estados Unidos no golpe de estado militar do passado 3 de Julho no Egito. Ali, as forças armadas, lideradas pelo general Abdel Fatah al-Sisi, derrubaram o presidente eleito Mohamed Mursi, reprimiram brutalmente os apoiantes encabeçados pela confraria dos Irmãos Muçulmanos, prenderam os seus chefes e impuseram o estado de emergência no país.
A reação do Ocidente ao golpe militar no Egito limitou-se às palavras.

O presidente Barack Obama garantiu com hipocrisia que «não toma partido» entre os dois lados do conflito. O seu secretário da defesa, Chuck Hagel, prometeu trabalhar para «pôr fim à violência e facilitar a reconciliação». E dirigentes da União Europeia condenaram o «excesso de força» e pediram «contenção», «respeito pelos direitos humanos» e «diálogo».

Mas, para além das cínicas declarações dos dirigentes dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus, e de uma ou outra medida sem impacto – como o cancelamento de manobras militares conjuntas entre norte-americanos e egípcios – há os fatos.

Aliado comprador
E os fatos mostram que, depois do tratado de paz com Israel, em 1979, o Egipto é um país fundamental para os interesses imperiais dos Estados Unidos e para a sua estratégia de dominação no Médio Oriente.
O Cairo é o segundo maior destinatário da «ajuda» bilateral económica e militar norte-americana, logo depois de Telavive, tendo recebido em 2012 cerca de 1.5 bilhões de dólares, a maior parte (1.3 bilhões) destinada a «assistência» bélica.
Segundo o jornal espanhol «El País», a «ajuda» militar estado-unidense ao Egipto inclui a formação de oficiais (500 a 1000 por ano) nas academias dos EUA. No ano passado, cerca de 80 por cento do armamento do ministério da defesa egípcio foi adquirido aos Estados Unidos. 
Em 2010 o Egito encomendou 20 aviões F-16 à empresa Lockeed Martin, por 2.5 bilhões de dólares, e, em 2013, vai comprar 1.200 tanques M1A1 Abrams Battle à empresa General Dynamics.
Também no quadro desta dependência militar – as forças armadas egípcias são financiadas, armadas e treinadas pelos Estados Unidos –, o governo do Cairo autoriza porta-aviões e outros navios da marinha de guerra norte-americana a atravessar o Canal de Suez entre o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico. E permite, claro, que os petroleiros cruzem o Mar Vermelho: em 2012 passaram o Suez 3.600 petroleiros, transportando três milhões de barris de crude, um comércio vital para os Estados Unidos.
Um outro aspecto da vergonhosa submissão política e militar do Cairo em relação a Washington é o papel que o Egipto desempenha, desde os acordos de Camp David, no policiamento da Península do Sinai, contribuindo para o bloqueio da Faixa de Gaza e para a «segurança» de Israel na sua guerra de agressão e anexação contra o povo palestino e outros povos árabes da região.
Por todas estas razões, é cada vez mais evidente que, no complexo processo em curso no Egipto, repleto de contradições, os Estados Unidos estão apostando fortemente no reforço do domínio daquele país norte-africano – ontem com o governo islâmico de Mursi, hoje com os militares de al-Sisi. 
E, em caso de necessidade, a «solução» que o imperialismo encontrou para a vizinha Líbia pode ser repetida no Egipto…
Um indicador claro da participação norte-americana no golpe de 3 de Julho é a entrada em cena da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Kuweit, fiéis aliados dos Estados Unidos. Inimigos dos Irmãos Muçulmanos, apoiam a ditadura militar do Cairo e desbloquearam já 9 bilhões de dólares de ajuda económica ao Egipto.
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