DILEMAS DA ESQUERDA NA EUROPA POR ANDRÉ FREIRE

André Freire comenta seu livro "A Esquerda Radical em Portugal e na Europa: Marxismo, Mainstream e Marginalidade", que escreveu em coautoria com Luke March (Universidade de Edimburgo) e que é hoje apresentado em Lisboa.
Para o professor de Ciência Política do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), "sobretudo os socialistas e os sociais-democratas na Europa têm convergido para estas soluções neoliberais dominantes e, por isso, não conseguem apresentar-se ao eleitorado como uma alternativa".
"Se os socialistas querem ter alguma afirmação mais robusta no futuro - que não seja apenas beneficiarem do desgaste dos que estão em funções - então têm de começar a trabalhar em alternativas às soluções neoliberais", alerta André Freire.
Um outro "dilema" que se coloca aos partidos de esquerda na Europa e em Portugal passa pelo "entendimento entre as esquerdas": nos casos em que é preciso construir coligações de poder, "o entendimento entre as esquerdas é fundamental", porque, sem isso, "os socialistas aliam-se com a direita, o que os torna muito parecidos com a direita e, no fundo, dilui o seu programa", como é o caso de Portugal, resume o politólogo.
Relativamente à categorização das esquerdas radicais europeias, os autores do livro consideram que existem "duas grandes famílias": a da extrema-esquerda, que "geralmente inclui os ortodoxos, que se renovaram menos, sendo partidos potencialmente mais anticapitalistas e menos cooperantes do ponto de vista da formação de governo", e a da esquerda radical, que agrupa os partidos "potencialmente mais cooperantes em matérias de governo e mais moderados ideologicamente".
Um outro aspeto que distingue as duas categorias - acrescentou Freire - prende-se com o resultado eleitoral de cada uma delas: se, por um lado, a esquerda radical apresenta "um resultado eleitoral mais volátil, mas também mais forte", por outro, a extrema-esquerda "está mais protegida, é mais estável, mas também [tem resultados] mais medíocres" nas urnas. No caso de Portugal, "o PCP encaixa na categoria da extrema-esquerda e o Bloco de Esquerda na da esquerda radical", embora o BE nunca tenha participado em nenhuma coligação governamental, explicou.
Esta distinção está na origem de um terceiro dilema apontado pelo politólogo: os partidos da esquerda radical "ou participam no 'mainstream' [corrente dominante] ou ficam mais puros ideologicamente, fora do 'mainstream', mas arriscando a marginalidade", assumindo-se como partidos de protesto.
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