PRESENÇA DO CORONEL PERDIGÃO NA FOTO DE 1976, NO SUPOSTO ACIDENTE DE ZUZU ANGEL, PODE BALIZAR QUE ELA FOI ASSASSINADA

Ex-agente do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), Guerra acusou Perdigão de participar do assassinato de Zuzu Angel e até apontou a presença do coronel na cena do crime a partir de uma foto do carro da estilista tirada por um perito pouco depois do acidente. Pela versão oficial, Zuzu Angel morreu num acidente de carro na saída do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, em 14 de abril de 1976. Zuzu morreu quando ainda estava em campanha pelo paradeiro do corpo do filho Stuart Angel, que teria sido torturado até à morte na Base Aérea do Galeão em 1971. Guerra mostrou uma foto à comissão e disse que o homem de camisa branca que aparece perto do carro de Zuzu era o coronel.
Cláudio Guerra liga coronel à morte de Zuzu Angel

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Ex-delegado do DOPS do Espírito Santo, que afirma ter executado 6 ou 7 pessoas a mando da repressão, e incinerado os corpos de outras 13, prestou depoimento à CNV

Em depoimento prestado à Comissão Nacional da Verdade nesta quarta-feira (23/07), o ex-delegado do DOPS do Espírito Santo, Cláudio Guerra, afirmou que o coronel Freddie Perdigão Pereira, morto em 1998, que atuou no Doi-Codi de São Paulo e na Casa da Morte de Petrópolis, e coordenou o atentado do Riocentro, provocou o acidente que resultou na morte da estilista Zuzu Angel, em abril de 1976.
Zuzu era mãe do desaparecido Stuart Angel e mobilizou a opinião pública nacional e estrangeira em busca de seu filho. A repercussão do caso prejudicou a imagem do regime militar no exterior.
"Éramos confidentes, frequentávamos a casa um do outro. Um dia ele me disse que havia planejado simular o acidente dela e estava preocupado pois achava que havia sido fotografado na cena do crime pela perícia", afirmou o delegado ao coordenador da Comissão, Pedro Dallari, e aos membros da CNV José Carlos Dias e Paulo Sérgio Pinheiro, que colheram seu depoimento, que foi aberto e realizado perante jornalistas.
Guerra foi condenado e cumpriu pena por três tentativas de homicídio, resultantes de um atentado à bomba do qual participou nos anos 80 no Espírito Santo. Na cadeia converteu-se ao cristianismo, tornou-se pastor da Assembleia de Deus e afirma querer fazer sua parte "para que uma página triste de nossa história seja passada a limpo".
Em seu depoimento, Guerra afirmou que incinerou os corpos de 12 militantes políticos e que assassinou e incinerou em seguida um tenente de nome Odilon, numa "queima de arquivo determinada pelo SNI". O ex-delegado contou também que executou, a pedido do Serviço Nacional de Informações, três militantes em São Paulo, um em Recife e "dois ou três" no Rio. "Se cumprisse pena por tudo o que fiz nunca iria sair da cadeia", afirmou.
Ele já havia prestado três depoimentos reservados à CNV, mas hoje foi questionado sobre questões específicas relativas aos casos em que esteve envolvido diretamente ou dos quais teve conhecimento. Ele indicou nomes de outras pessoas e testemunhas que poderão ser ouvidos pela CNV em diferentes Estados e que poderão ajudar a elucidar ou trazer mais informações sobre os casos investigados.
Perguntado sobre qual o motivo de um delegado de outro Estado ser chamado para executar militantes políticos perseguidos em outros locais, Guerra, que afirma ter aprendido técnicas de tiro com um ex-agente do Mossad (serviço secreto israelense), afirmou que a técnica era uma medida previamente estabelecida pela repressão para não vincular autoridades locais aos assassinatos praticados pela ditadura. Ele admitiu, por exemplo, que no caso de pelo menos uma das pessoas que ele matou, as autoridades simularam depois que houve um tiroteio.
POLÍTICA DE ESTADO - Na avaliação do coordenador da CNV, Pedro Dallari, os principais pontos do depoimento de Guerra foram a indicação da participação de Freddie Perdigão Pereira na morte de Zuzu Angel, já reconhecida pelo Estado como uma morte relacionada à sua militância, mas cujo assassinato jamais foi admitido por agentes da repressão, e o fato de o depoimento trazer elementos que mostram as graves violações de direitos humanos de oposicionistas do regime como uma política de Estado da ditadura.
"O relato do ex-delegado mostra que haviam ações e estratégias para a prática de graves violações de direitos humanos, como uma política pública, não como excessos de alguns agentes como sempre a ditadura quis fazer crer. Executores remanejados de um lugar para outro para eliminar as vítimas e a logística para eliminação de corpos são elementos que ajudam nessa conclusão", afirmou Dallari.
(24/07)- A CNV reúne-se com Cláudio Guerra para colher mais dados e nomes das pessoas por ele indicadas e para aprofundar algumas informações sobre detalhes dos crimes que ele cometeu. "A partir das informações que ele vai prestar seguiremos as pistas e vamos deslocar assessores para ouvir pessoas no Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo", afirmou o membro da CNV José Carlos Dias.
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