A ESPIRAL EUROPEIA DA DESIGUALDADE

 
Crise do capitalismo lança
25 milhões na pobreza
 
Um estudo da Oxfam International conclui que as actuais políticas de empobrecimento agravarão as desigualdades na Europa, lançando mais 25 milhões de pessoas na pobreza
O relatório intitulado «Um conto moral: o verdadeiro custo da austeridade e da desigualdade na Europa» («A cautionary tale: The true cost of austerity and inequality in Europe»), divulgado dia 12 pela Oxfam International, salienta que «120 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza em 2011 na Europa», número que poderá «aumentar pelo menos de 15 milhões a 25 milhões, em resultado das medidas contínuas de austeridade».
É o equivalente à população da Holanda e da Áustria juntas, lê-se no documento, que refere que «as mulheres serão as mais afetadas».
A instituição, criada em 1995 por 17 organizações não governamentais, observa que as políticas ditas de «consolidação orçamental» continuarão a traduzir-se em perdas salariais reais e que «a erosão da capacidade de negociação colectiva» das condições de trabalho aumentará o número de trabalhadores pobres.
«A Europa devia aprender duas lições importantes com as crises de dívida anteriores noutras regiões: que uma dívida insustentável é uma dívida impagável, que exige um processo de arbitragem justo e transparente que possa incluir uma reestruturação alargada ou o cancelamento da dívida, e que quanto mais cedo a espiral de crescimento da dívida for atacada pelos estados-membros e pela União Europeia melhor», alerta a Oxfam.
O documento conta com uma breve introdução de Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia e antigo economista-chefe do Banco Mundial, na qual se afirma: «A onda de austeridade económica que varreu a Europa corre o risco de provocar danos sérios e permanentes ao modelo social do continente. Como os economistas, incluindo eu próprio, têm vindo a prever, a austeridade só tem penalizado o crescimento da Europa. (…) Pior: está a contribuir para a desigualdade que vai tornar as fraquezas económicas mais duradouras e contribuir, desnecessariamente, para o sofrimento dos desempregados e dos pobres por muitos anos».
Os países sujeitos às medidas de austeridade mais duras, caso de Portugal e Grécia, mas também a Espanha e o Reino Unido, estarão «em breve entre os países mais desiguais do mundo», afirmou à AFP Natalia Alonso, directora da secção europeia da Oxfam.
Em declarações à Lusa, o economista dominicano Miguel Ceara observou, a propósito do relatório, que «a solução [adoptada na Europa] foi comprimir a economia até a um ponto em que se gere um excedente para pagar a dívida».
«É óbvio que, se a economia cai durante uma década ou duas, haverá depois uma recuperação, mas essa transição implica que muita gente perca recursos e o aprofundamento das desigualdades».
Para Ceara é claro que a «solução» adoptada pelos grupos de poder mais fortes na Europa para superar a crise atual condena a população a 15 ou 20 anos de precariedade e pobreza.
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