OBRIGADO PORTUGAL! PIG COME BOLA, MAS PATRÍCIOS SALVAM A LEMBRANÇA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, NOSSO POETA MAIOR


"Carlos Drummond de Andrade

foi o encontro da minha vida"

Por  Armando Freitas Filho no Jornal Português; Publico
 Uma conversa sobre Drummond, no dia em que passam 25 anos sobre a sua morte, com o amigo e poeta Armando Freitas Filho.
A Urca é aquela aldeia aos pés do Pão de Acúcar. Só no Rio de Janeiro se pode estar assim e, ao mesmo, tempo, olhar para o Rio de Janeiro: Baía de Botafogo, Centro, Cristo. Aqui mora, rememora e escreve Armando Freitas Filho, um dos principais poetas brasileiros contemporâneos. 
Armando não precisa de perguntas. Anfitrião antigo, mal a gente se senta já está a falar daquele livro de Sophia de Mello Breyner Andresen que tem o mesmo título de um livro seu, cronologicamente anterior, Dual. Quando Sophia descobriu, leu-o e falou disso ao ensaísta português Arnaldo Saraiva. Ou terá sido ao poeta brasileiro Murilo Mendes? Armando já não tem a certeza. Mas daqui passa para o volume da poesia de Sophia que Carlos Mendes de Sousa (o organizador) lhe mandou. E daí para Luiza Neto Jorge, de quem também é grande admirador.
Não deixa por isso de estar atento aos vivos e muito novos: no próximo dia 4 lança um pequeno livro em forma de sanfona com a poeta carioca Alice Sant"Anna, 24 anos. Armando está com 72, para o ano completa 50 de poesia e publica um novo livro, Dever. Lá estará o poema O nome de um pai, que o PÚBLICO aqui antecipa, porque esse "pai" é Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e é para falar de Drummond nos 25 anos da sua morte, que esta tarde estamos na Urca. 
Na última FLIP, a festa literária de Paraty, cujo tema foi Drummond, Armando emocionou o auditório ao contar o seu encontro com o poeta. "Era um homem de difícil intimidade, que se dava pouco, e eu tive esse privilégio, então o Miguel [Conde, curador da FLIP] queria que eu fosse abrir [a festa]. Fomos jantar ali no Bar Urca e eu disse-lhe: "Não sou capaz de ir falar do Carlos Drummond naquela barraca [para quase 1000 pessoas], é demais para mim."" Contrapropôs gravar um testemunho em casa, aproveitando que o realizador Walter Carvalho já está habituado a filmar aqui, para um documentário em curso sobre Armando. Assim foi. E a frase com que Armando começa também está lá: "Carlos Drummond de Andrade foi o encontro da minha vida." 

Tudo parte de um disco que este poeta carioca recebeu do pai aos 15 anos, lado A com a voz de Manuel Bandeira, lado B com a voz de Drummond. "Sou metódico, tenho de compreender uma coisa bastante antes de passar para outra. Então fiquei ouvindo o Bandeira." Um dia virou para o lado B. "Aí nasceu Drummond. A poesia dele falava com as minhas entranhas, eu não sabia que se podia escrever daquela forma. Até hoje acho que é impossível escrever assim. Aí comecei a estudá-lo à minha maneira. Copiava os poemas dele e fazia variantes, mudando os termos, para ver como era escrever dentro daquela forma. Era uma coisa obsessiva. Fiz isso durante muito tempo até que comecei a escrever para mim." 
Dos 20 aos 22 escreveu o primeiro livro, que o pai resolveu levar a Bandeira, junto com o tímido Armando, antes mesmo de estar publicado. Bandeira achou "interessantíssimo", recomendou outros leitores, o livro saiu. Então o pai insistiu em levar o livro (e Armando) a Drummond. "Era dose! Não fui. Eu já tinha ficado mudo com o Bandeira, com o Drummond era capaz de cair para trás." O pai foi sozinho levar o livro e Armando só veio a conhecer o mito sete anos depois. 

Drummond já estava reformado como funcionário do Ministério da Educação, mas continuava a marcar encontros lá perto. "Porque ia encontrar a Lygia, sua namorada, que trabalhava no ministério." Armando começou a vê-lo lá perto, na livraria Leonardo da Vinci, onde Drummond ia ver as novidades, conversar com a dona Vânia. Daí caminhavam pelo centro do Rio. "Eu era gago e ele falava com frases curtas e uma voz muito baixa." Armando põe-se em pé: "A gente andava e ele assim, rápido e com os braços muito presos ao corpo. A impressão que eu tinha dele era sempre de perfil." Mas de frente "tinha um olho azul como bola de gude [berlinde]".
Continua
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