Portugal mantém Cavaco Silva na Presidência

Cavaco com maioria, Alegre sofre derrota
Para quem é a Bola da Vez na Crise Economica,  os Portugueses parecem não acreditar ou ainda não sabem o que o PIG brasileiro vem anunciando ha dois anos. Os Portugueses estão prestes a afundar e mantém o Capitão do Navio  para levá-los diretos ao Iceberg. Será?
 
Cavaco Silva foi reeleito à primeira volta. Manuel Alegre, apoiado pelo PS e pelo Bloco, foi o grande derrotado. Fernando Nobre conseguiu mais de meio milhão de votos, Francisco Lopes segurou o eleitorado comunista e José Manuel Coelho surpreendeu com 4,5% dos votos, tendo vencido em três concelhos da Madeira, incluindo o Funchal.
Por:Armando Esteves Pereira
O Presidente, que disse na campanha que tinha pouco apetite para usar a ‘bomba atómica' que lhe permite demitir o Governo, um poder que pode exercer a partir do próximo dia 9 de Março, frisou ontem no discurso de vitória que será "um referencial de confiança, de estabilidade e de solidariedade, sem abdicar de nenhum dos poderes que a Constituição" lhe confere. Cavaco prometeu exercer "uma magistratura activa, cooperando lealmente com todos os órgãos de soberania para a defesa dos grandes objectivos estratégicos nacionais". Pedro Passos Coelho, líder do PSD, também sublinhou que a vitória de Cavaco nas presidenciais não foi a primeira volta de futuras legislativas.
As eleições foram marcadas por uma abstenção recorde. A bronca com o Cartão do Cidadão, que não tem número de eleitor, terá contribuído em alguma parte para este registo. Cavaco não se esqueceu do incidente e criticou o Governo, ao saudar "os cidadãos portugueses que por razões burocráticas" não conseguiram votar, e adiantou que a "qualidade da democracia também se constrói criando condições para o exercício efectivo do direito ao voto". Mas uma nota da noite foi o protesto dos eleitores, manifestado no voto em candidatos como Coelho, ou nos recordes históricos dos votos brancos e nulos.
ALEGRE VALE MENOS COM O PS E BLOCO
Manuel Alegre foi a maior surpresa há 5 anos. À revelia dos partidos, o poeta consegui mais de um milhão de votos e passou os 20%. Agora com o apoio do Bloco e do PS não chegou a essa fasquia e ficou longe de 1 milhão de votos. Fernando Nobre ocupou o espaço deixado por Alegre e também surpreendeu com uma percentagem semelhante à registada por Mário Soares há 5 anos. O PCP voltou a apresentar um candidato, mas Francisco Lopes tem menos 160 mil votos do que os obtidos por Jerónimo em 2006.
Cavaco esmagou em todos os distritos, mas é o PR menos votado da História. Alegre desiludiu em toda a linha, tendo menos votos com apoios partidários do que sozinho.
Confirmaram-se as indicações das sondagens, a tradição eleitoral, as previsões dos comentadores, o senso comum: Cavaco Silva foi reeleito, como gritavam os seus apoiantes durante a campanha eleitoral, "à primeira!"; e Manuel Alegre registou um resultado pior do que quando concorreu, em 2006, sem apoios partidários.
Mas, no país da abstenção (52,4%, valor só superado nas escolhas para o Parlamento Europeu), apesar de triunfar em todos os distritos (na maioria esmagando Alegre), com 52,9% e 2,2 milhões de votos, mesmo assim Cavaco Silva é o Presidente menos popular da III República: não só é o único que nunca teve três milhões de votos, como ficou abaixo de Jorge Sampaio, que tinha registado o pior desempenho até à data, com 55,6% e 2,4 milhões na reeleição de 2001.
O resultado de Manuel Alegre (19,8%), inferior aos 20,7% que teve quando concorreu sozinho - a origem desse milhão de votos de 2006 terá sido sobretudo dos que contestavam os partidos e, agora, votaram em Fernando Nobre -, pode ser terrível para o poeta, mas também é péssimo para o PS, o BE e o PCTP/MRPP - que somaram 43,7% (2,2 milhões de votos) nas legislativas de 2009. E, em especial, para José Sócrates, líder do partido que elegeu dois PR (Mário Soares e Jorge Sampaio) e, depois, obteve votações irrisórias nos candidatos que decidiu apoiar na corrida a Belém em 2006 e em 2011.
A surpresa da noite foi Fernando Nobre, pois os seus 14,1% superaram até as sondagens que lhe eram mais lisonjeiras, demonstrando ser possível um independente conquistar uma fatia relevante do eleitorado - o que deveria servir de aviso à classe política, pois, em vez de um vulto tão irrepreensível como o fundador da AMI, nada garante que, no futuro, não surja um caudilho a entusiasmar multidões.
Mais impressionante ainda seriam os 4,5% de José Manuel Coelho, encarado como o equivalente ao brasileiro palhaço Tiririca, ao cómico Coluche nas presidenciais francesas de 1981 ou à porno star Cicciolina nas legislativas italianas de 1987, que, além de galvanizar a Madeira (39%), registou também boas votações no resto do País - e que sucederia com um outsider mais carismático e bem popular entre a juventude como o músico Manuel João Vieira?
Silêncio e uma sala vazia no Altis 'socialista'
por MARIA JOÃO CAETANO
Além do 'staff' de Alegre, foram poucos os apoiantes do PS e do BE que quiseram estar com o candidato derrotado por Cavaco.
Às 20.50 Miguel Portas partiu um copo. Os supersticiosos acreditam que este é um indício de felicidade mas ali, no Hotel Altis, em Lisboa, tradicional quartel-general do Partido Socialista em noite de eleições, não se vê ninguém a querer festejar. Não se vê ninguém, será o mais correcto. Os jornalistas tropeçam uns nos outros no hall e na sala das declarações onde se alinham cadeiras vazias. Às 20 horas, quando foram anunciadas as primeiras projecções de resultados, não houve aplausos nem suspiros. Só o mesmo silêncio de antes. "Sabe, somos um povo muito triste", justifica António Madeira, 74 anos, reformado mas ainda a trabalhar na construção, plantado sozinho em frente de uma enorme televisão num dos átrios do hotel. "Sou socialista quase desde nascença. Venho sempre aqui. Mesmo quando perdemos."
Foi dos poucos. Naquela sala que de outras vezes se encheu de militantes, desta vez há apenas um com coragem de usar um autocolante ao peito e uma "t-shirt Alegre": Vaz Casaca, apoiante daquelas que se costumam chamar "as bases" do partido. 59 anos, voluntário da campanha de Alegre pela segunda vez. "Andei a entregar jornais, fui ao comício do Porto, fiz de tudo e paguei do meu bolso." E conclui: "Vou ficar até ao fim. Ainda há pouco tempo aqui estivemos com o António Costa e depois com o José Sócrates. Umas vezes festejamos, outras não, a política é mesmo assim."
Mais ou menos à mesma hora em que Miguel Portas deixava cair um copo no chão provocando um "oh" generalizado, um funcionário da campanha distribuía bandeiras enroladas com fita-cola pelas cadeiras vazias com estofos aveludados. Bandeiras brancas por Alegre e bandeiras verdes e vermelhas de Portugal que haveriam de ser empunhadas brevemente pelos apoiantes, vindos do 13º andar, poucos minutos antes do discurso final do candidato derrotado. Na primeira fila, Helena Roseta, os escritores Jacinto Lucas Pires e José Manuel Mendes, o psiquiatra Daniel Sampaio, a socialista Jamila Madeira, a bloguista Helena Pinto. Todos de pé para a entrada de Alegre, acompanhado pelos dirigentes do PS, a voz grossa de um jovem dá o mote : Alegre, Alegre, Alegre. E depois: Portugal, Portugal, Portugal. E depois uns "muito bem" de incentivo ao candidato, sozinho no púlpito. E, assim, por momentos, o Altis fingiu que era como antigamente. Até terminar o discurso e se apagarem as luzes das câmaras. Antes das 22.00 a sala esvaziou-se. Ficaram os jornalistas a enrolar os cabos e a guardar o material. E umas quantas bandeiras, ainda enroladas com fita-cola, à espera de serem usadas.
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