SOLIDARIOS COM JOSÉ DIRCEU

Cartazes pela anistia de Dirceu: Alyda Christina Sauer 
"O Mensalão nunca existiu"
(entrevista publicada em 06 de dezembro de 2007, no Diário de Notícias de Portugal)

O antigo número dois do Governo de Lula da Silva considera que foi o bode expiatório do escândalo do Mensalão, que tinha como objectivo derrubar o Presidente e destruir o Partido dos Trabalhadores (PT). Actualmente a trabalhar como advogado e consultor de grandes empresas, não descarta regressar à política em 2015. E ser candidato...

[ DN ] O Presidente Lula estaria a pensar num terceiro mandato. Faz sentido para si?
[ José Dirceu ] Não, pelo contrário, o Presidente já descartou a ideia. Dificilmente no Brasil haveria condições políticas. Não que não seja constitucional, porque, se houve a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso um ano antes do fim do mandato, evidentemente que do ponto de vista legal você pode levantar a ideia de um terceiro mandato. Agora, o Brasil não precisa de terceiro mandato, precisa é de reforma política. O nosso sistema político está completamente falido, por causa do financiamento privado, da infidelidade partidária e do voto uninominal.

[ DN ] Apesar de tudo isso, acha que Lula deveria tentar esse terceiro mandato?
[ José Dirceu ] De jeito nenhum. Seria um erro gravíssimo.

[ DN ] Qual é a sua relação actual com ele?
[José Dirceu] É a de um ex-ministro, de um ex-presidente do PT, de um ex-deputado. Portanto, é uma relação de um companheiro de lutas, de um amigo. Converso com ele quando é necessário e já ouvi que não quer terceiro mandato.

[ DN ] Falou com ele recentemente?
[ José Dirceu ] Nos últimos meses.

[ DN ] Não mantêm um contacto permanente...
[ José Dirceu ] Não, permanente não. Não sou pessoa que tenha actualmente um cargo que exija uma relação com ele. Lula tem de governar o país.

[ DN ] Uma ideia que surgiu após o escândalo do Mensalão, em que muita gente foi salpicada no PT, é que foi o bode expiatório da situação. Sente-se assim?
[ José Dirceu ] Não, eu sinto que o objectivo era me tirar do Governo, era inviabilizar o Governo, se possível fazer um impeachment ao Presidente, e principalmente destruir o PT.

[ DN ] O PT saiu mais fraco no pós-Mensalão.
[ José Dirceu ] Não tanto. O partido elegeu governadores em estados importantes. 83 deputados, 12 senadores, é o partido mais votado do país.

[ DN ] Acha que resistiu bem ao escândalo?
[ José Dirceu ] Acho que sim, até porque, em primeiro lugar, nunca existiu o Mensalão. O PT está respondendo por caixa dois, por financiamento ilegal de campanhas. Segundo, ao contrário de outros partidos, o PT assumiu e está respondendo, tomou medidas internas no partido, basta ver a prestação de contas do partido em 2006. O PT tem de se empenhar na reforma política. Se queremos acabar com a caixa dois, temos de acabar com o financiamento privado, acabar com a infidelidade, acabar com o voto uninominal, fazer a reforma política. E o PT tem-se empenhado na reforma política. Infelizmente eu fui cassado [o mandato foi retirado] e respondo hoje como réu no Supremo Tribunal Federal, mas tenho absoluta convicção... até porque, no que eu respondi até agora eu fui inocentado. Respondo por uma acusação genérica, de que seria o chefe do Mensalão, teria participado nas reuniões, em toda a organização do caixa dois, coisa que não é verdade.

[ DN ] Disse que o quiseram tirar do Governo. Quem? Alguém do partido...

[ José Dirceu ] Não. A oposição, os media conservadores.

[ DN ] O que é que tinham contra si em especial? Era uma forma de atingir Lula?

[ José Dirceu ] Era uma maneira de atingir o Presidente, o Governo e o PT. Até porque eu fui o secretário-geral e presidente do PT durante 12 anos, eu fui o coordenador das campanhas do Presidente, eu era o chefe da Casa Civil.

[ DN ] Era contra si também?

[ José Dirceu ] Particularmente contra mim no começo. Começou com o caso Waldomiro Diniz, que não tem nada a ver com o Governo de Lula. O facto em si não tem nenhuma vinculação com o Governo, nem ficou provada nenhuma vinculação com o Governo até hoje. Agora, foi transformado como se fosse o maior escândalo da República. Depois, a partir de um problema real de caixa dois, de denúncias de corrupção no Governo - não do Governo ou do Presidente - se transformou isso numa grande campanha mediática, política, de oposição ao Governo.

[ DN ] Disse que o Mensalão não existiu. Então o que é que existiu realmente?
[ José Dirceu ] Financiamento de campanha através de caixa 2. É isso que está na justiça eleitoral.

[DN] E é esse financiamento ilegal dos partidos que considera um escândalo para o Brasil e o que deve ser mudado...?
[ José Dirceu ] Mudar não. Nas eleições de 2006, depois do chamado Mensalão, se fizer uma avaliação de qualquer campanha vai ver que ela foi feita com caixa dois. É uma hipocrisia, é um pretexto político para atacar o PT. O que não quer dizer que foi correcto o PT fazer.

[ DN ] Continua então a existir caixa dois?
[ José Dirceu ] Evidente.

[ DN ] Inclusive no PT?
[ José Dirceu ] O PT pelas declarações de gastos de campanha gastou 400 milhões de reais, é um sinal de que não fez caixa dois.

[ DN ] Nas finanças do PT há uma diferença em relação a anteriores eleições?
[ José Dirceu ] Evidente.

[ DN ] Na altura em que o Mensalão era muito falado, chegou a dizer-se que responsáveis de empresas portuguesas se encontraram consigo, nomeadamente o presidente da PT e o do BES. Teriam sido apresentados pelo publicitário Marcos Valério. Qual era o objectivo?

[ José Dirceu ] Não, comigo não houve encontros. Eles se tiveram encontros com Marcos Valério não foi através do Governo.

[ DN ] Não se chegou a encontrar com o presidente da PT e do BES?
[ José Dirceu ] Não. Eu recebi no Palácio do Planalto o presidente do BES no Brasil, que não é o Ricardo Salgado, é o sobrinho.

[ DN ] E com o presidente do PT?
[José Dirceu ] Não, eu não tinha nenhuma ligação com a área de telecomunicações do Governo.

[ DN ] Mas é natural que as empresas que quisessem investir no Brasil tivessem contactos com os ministros...
[ José Dirceu ] Sem nenhum problema. Eu recebi todos os empresários que me procuraram, como recebi o presidente do BES no Brasil. Com o Marcos Valério, mas só levados por ele. O Marcos Valério esteve na Casa Civil umas três vezes, nunca telefonou para mim, nunca teve uma reunião comigo. Ele esteve na Casa Civil três vezes acompanhando bancos a quem prestava assessoria. Constava na agenda.

[ DN ] Hoje em dia, na sua vida privada não tem nada a ver com estas empresas?
[ José Dirceu ] Não, mas posso ter. Não tenho impedimento. Estou fora do Governo há três anos.

[ DN ] Não tem receio de que se houvesse uma relação alguém viesse apontar o dedo?
[ José Dirceu ] Não vejo porquê. Tenho relações com várias empresas como outros ex-ministros têm.

[ DN ] Qual é a sua área de trabalho?
[ José Dirceu ] Sou advogado e consultor.

[ DN ] E a que se deve esta visita a Portugal?
[ José Dirceu ] Investimentos no Brasil e em Angola.

[ DN ] Em que sectores?
[ José Dirceu ] Infra-estrutura, energia, turismo.

[ DN ] Empresas portuguesas no Brasil?
[ José Dirceu ] Sim, empresas portuguesas no Brasil e brasileiras que investem em Angola.

[ DN ] Pode dar exemplos desses projectos?
[ José Dirceu ] Não, nem no Brasil eu dou. Porque, na primeira vez que eu dei, fizeram uma campanha para a empresa romper o contrato comigo. E eu perdi o cliente. Porque no Brasil eu sou sempre razão de luta política.

[ DN ] A sua experiência política é muito útil?
[ José Dirceu ] Menos que a experiência profissional, académica, como executivo, como advogado.

[ DN ] Mas conheceu muita gente...
[ José Dirceu ] Lógico, qualquer cidadão que tenha tido uma actividade profissional depois quando sai tem um uma lista de relações.

[ DN ] O Brasil tem uma relação especial com Angola, presumo que também tenha...
[ José Dirceu ] Eu tenho mais relação com Angola por causa de Cuba do que do Brasil. Eu sou uma pessoa ligada a Cuba, vivi muitos anos em Cuba. Portanto, empresas portuguesas no Brasil e brasileiras em Angola. Basicamente, brasileiras em Angola. Infra- -estruturas, beneficiamento, comércio.

[ DN ] Quando olha para o Brasil em 2007 e compara com as expectativas que tinha no momento em que Lula assume a presidência era este o caminho?
[ José Dirceu ] Sim, era esse, porque nós tínhamos um programa bem pragmático. Quando Lula disputou a presidência, estabeleceu como objectivo sanear a dívida interna do país, reduzir a 40% do PIB. Sanear as finanças externas, hoje temos um superavit de 40 milhões de dólares e 200 milhões de reserva. O país praticamente não tem dívida externa. Reduziu a inflação, retomou o crescimento económico. Criou 4,5 milhões de empregos no primeiro mandato. Vai criar seis milhões no segundo.

[ DN ] Mas a pobreza demora a ser reduzida...
[ José Dirceu ] Está dentro das possibilidades do país.

[ DN ] Mas acha que o Lula está a ser realista ou pouco ambicioso?
[ José Dirceu ] Ele está a fazer aquilo que, dentro das condições políticas e económicas brasileiras, e internacionais, é preciso fazer no Brasil. A experiência de fazer mais na base do voluntarismo não tem dado certo. Tem-se visto.

[ DN ] Acha que o Lula resistiu à tentação de ter um discurso populista como Chávez?
[ José Dirceu ] O PT nunca foi um partido populista. O PT já tinha governado as principais cidades brasileiras, vários estados, antes da presidência. O PT sempre foi um partido de responsabilidade fiscal, um partido de sanear as finanças públicas, de combater a corrupção, de descentralizar, de participação popular, de ter uma visão do movimento local e regional e fazer investimento social. Se olhar para as experiências das grandes cidades brasileiras que o PT governou, vai ver que são bem sucedidas, dentro da precariedade da situação do país como o Brasil, de grandes desigualdades, de problemas graves de inflação, de problemas tributários.

[ DN ] Sendo um conhecedor de Cuba, qual é a sua opinião sobre a evolução do país?
[ José Dirceu ] Qualquer mudança em Cuba depende dos EUA, dado a situação do cerco à ilha. O ideal é que houvesse um desbloqueio americano, porque isso desbloquearia toda a vida política, económica e cultural.

[ DN ] Cuba é um mito na América Latina?
[ José Dirceu ] Não, é um país concreto que nos últimos 50 anos lutou para sobreviver, pois não se pode pensar em Cuba sem a agressão norte-americana, que é uma agressão permanente.

[ DN ] Essa crítica aos EUA é geral?
[ José Dirceu ] Também não concordo com a situação no Iraque, se tivesse de haver alguma intervenção tinha de ser na ONU. Está provado que não havia armas. Não faz sentido que um país imponha a ordem noutros países.

[ DN ] Contactou com George W. Bush?
[ José Dirceu ] Sim, nas viagens do Presidente Lula. Pessoalmente fiquei com uma boa impressão, outra coisa é a sua política. Ele está qualificado para ser presidente dos EUA, como os outros. Não vejo que seja nem pior nem melhor.

[ DN ] O Presidente Lula é melhor que Bush?
[ José Dirceu ] Para o Brasil, é. Muito melhor.

[ DN ] Está agora na actividade privada. Um homem com tanta experiência política que ambições tem no futuro?
[ José Dirceu ] Primeiro quero provar a minha inocência no Supremo Tribunal. Eu continuo a fazer política, tenho um blogue, tenho um site. Eu viajo pelo país, faço palestras. Participo em lutas políticas, quando acho que vale a pena. Não tenho participado muito, nem tão-pouco como gostaria, nem tanto como dizem que participo, a oposição.

[ DN ] Mas acha que ainda tem algum poder?
[ José Dirceu ] Eu tenho liderança, uma parcela grande do PT me vê como uma liderança. Me escuta, quer saber a minha opinião, de certa maneira concorda com os pontos de vista que eu defendo sobre várias questões do país.

[ DN ] Quando se pronuncia sobre um tema...
[ José Dirceu ] Tenho audiência.

[ DN ] E isso reflecte-se de algum modo no PT?
[ José Dirceu ] Sim, seria hipocrisia minha dizer que não. Não tenho voz para decidir, mas também não posso dizer que não tenho nenhuma.

[ DN ] A sua voz conta no Brasil apesar de não ter um cargo político...
[ José Dirceu ] No PT conta, não como contava antes. No Governo conta, também não como contava antes. E no país ainda sou uma das lideranças, apesar de toda a minha situação, mas não sou mais a liderança que era.

[ DN ] Quando olha para os políticos acusados no Brasil e para a sua situação, impedido de fazer política, sente-se injustiçado?
[ José Dirceu ] Eu tenho a consciência tranquila. Porque não há nada contra mim nos meus anos de Governo, não fui acusado de nada. Nem nos meus 15 anos de parlamentar, nem como empresário, nem como funcionário público. Nunca fui investigado, eu não posso ter virado bandido do dia para a noite. É uma injustiça. Uma pessoa não pode ter uma vida impecável e aí surge um escândalo chamado Mensalão e vira chefe de quadrilha.

[ DN ] Como é que lida com essa suspeita?
[ José Dirceu ] Eu luto para provar o contrário, só me resta lutar. Como eu sou de luta, eu faço aquilo que eu sei fazer. Eu não me dobro.

[ DN ] Não tem direitos políticos...
[ José Dirceu ] Eu tenho direitos políticos, estou é inelegível até 2015. Posso ser ministro, ser secretário, embaixador, votar, ser filiado no PT e dirigente. Não posso é ser candidato. É um absurdo. Eu só devia ser inelegível se fosse condenado pela justiça, mas no Brasil o direito de cassar mandatos cabe ao Parlamento. É cassado conforme a maioria, não conforme a culpabilidade. Fui cassado com falta de provas, mas os outros que reconheceram que receberam dinheiro ilegal foram absolvidos.

[ DN ] Que idade é que vai ter em 2015?
[ José Dirceu ] Vou ter 69 anos.

[ DN ] Imagina-se a candidatar-se a algo?
[ José Dirceu ] Sim.

[ DN ] Presidente do Brasil?
[ José Dirceu ] Essa é uma das razões por que me cassaram. Não porque eu me considerava candidato ou trabalhava para isso. Mas temiam isso.

[ DN ] Chegou a ter essa ambição?
[ José Dirceu ] Não, a minha ambição era reeleger o Lula.

[ DN ] Mas não seria o regresso triunfante?
[ José Dirceu ] Já me dou por satisfeito se conseguir provar a minha inocência no Supremo Tribunal.

*Entrevistado por Leonídio Paulo Ferreira e Susana Salvador
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